SOBRE O AMOR isto não é para todos lerem!


Não é eufórico, nem dramático como a maioria gosta! Sobre os amantes, sobre pais e filhos, sobre os amigos, sobre os casais, sobre sexo, sobre os inimigos, sobre raças, sobre países e fronteiras, sobre si mesmo...



Algumas pessoas pediram-me para escrever sobre o amor no dia dos namorados... enfim... não consegui... não tenho nada contra o dia dos namorados... apesar de ser um momento extremamente comercial é também um momento que para muitos os inspira a ser melhores do que são normalmente... e está bem... para outros acham ridículo... também está bem... para mim... já não faz sentido, na verdade nunca fez, mesmo embarcando algumas vezes na comemoração com alguns parceiros, algumas vezes por pura inconsciência quando mais nova, outras porque era motivo de estarmos juntos...etc.... todas aquelas razões...







Já algum tempo que não faz sentido este dia... falar de amor nesse dia faz-me ainda menos... é como ter de comprar presentes de natal sem me apetecer... não o faço...


As relações amorosas têm sido alvo de grandes dissertações, análises, filosofias, psicologias, pensamentos mundanos, conversas de rua, conversas secretas... tudo para ver se conseguimos entender a fórmula do amor e manter relações vivas.


Vimos de séculos em que nos foi vendido, especialmente a nós, o continente velho, por obra da Igreja Católica, que casar era para a vida, como o mesmo parceiro até que a morte nos separe... pois bem, há imensas ideologias no mundo, há muitas formas de nos relacionarmos, antes da Roma antiga, na selva e no deserto nas tribos antigas que ainda perduram nos seus costumes, nos países árabes... basta procurar um pouco, ler até na wikipédia e vai ver que o ser humano teve de criar formas e normas para nos relacionarmos. Já passamos por momento horripilantes em que a mulher era propriedade do homem, em que a escravatura era a base da economia e sociedade humana, em que a homossexualidade era uma aberração... bem... se formos simplesmente honestos e olharmos para os 4 cantos do mundo... tudo isto ainda acontece... enquanto uns e umas já podem respirar fundo graças a grandes lutas por causas reais, há ainda muitos outros seres humanos a viverem esses paradigmas onde a liberdade e respeito ainda não desabrocharam... pelo menos aos meus olhos... ainda há muito trabalho pela frente!



Falo então do que hoje chamamos amor... mas pergunto-me como podemos amar? O que é amar?


Esta coisa, que há pouco tempo confrontei e sei que nas camadas mais subtis ainda me arranha a alma, esta coisa de querer a todo o custo que uma relação funcione, seja de amante, de casal, de amizade, de trabalho, de pais e filhos... deixou de fazer sentido...

A maior parte nós, relaciona-se com o outro através de um espaço de necessidade... de necessidade e imposição...



Um exemplo: um homem e uma mulher conhecem-se, sentem uma química brutal (ou não – depende do grau de exigência de cada um), envolvem-se e durante um certo tempo (para a maioria tem a duração de um ano e meio dois) estão inebriados pela química da paixão e da novidade... a exploração é fantástica ou tenebrosa... mas é exploração e, isso entretem-nos, a nós, o humano... quando a exploração, novidade e química passa, a arte da personalidade, da vida que carregamos desde a infância e, arrisco-me a dizer da viagem da nossa alma, entra em ação e todas as feridas, padrões de sentimentos e pensamentos, memórias que vivem sorrateiramente no nosso inconsciente começam a entrar em ação... nesta fase, em vez de olharmos para o que nos está a acontecer como uma oportunidade de ver o que está dentro do nosso ser, que não tem como ser agarrado no concreto como um tijolo para ser arrancado da nossa morada, e que foi ativado por aquela relação... entramos no desespero de querer que aquela relação funcione à nossa maneira, à nossa visão... a única que temos... e o outro passa pelo mesmo processo e responde da sua forma única e pessoal... Atenção que muitos “esgatafunham-se” para a relação continuar a funcionar e outros desistem prontamente... vai dar ao mesmo... tudo baseado num inconsciente avassalador que nos controla sem nos apercebermos, herança genética de séculos e resultado da nossa experiência nesta vida.


Amor....amor... é aquela realidade sem densidade, sem matéria que consegue dar colo a qualquer tipo de amor e desamor, ao passional, ao silencioso, ao amoroso, à falta do próprio amor... é uma dimensão que é tão real que engloba qualquer conceito e tipo de amor e que faz a matéria do nosso corpo deleitar-se em prazer e contorcer-se de dor. Aquela dimensão onde encontramos compaixão por qualquer ser vivo ou inanimado... aquela dimensão onde tudo é sagrado.


Estamos viciados em drama... sem drama não há cinema nem telenovela, sem discussão e guerra... não saberíamos escrever poesia... enfim vícios da humanidade...

O contra-senso é tão profundo que nos queremos anestesiar para não sentir... álcool, drogas, comida... o outro... adrenalina... netflix com fartura.



Mas será isto o amor?



Vejo muitos casais, e fui uma delas em que o amor que acreditava estava cheio de medos, cheio de dúvidas, cheio de prisões internas... não me deixava ser eu própria com medo de perder alguém, ou que alguém gostasse menos de mim, ou cheio de exigências porque só acreditava em certos tipos de amor ou provas de amor, cheio de condições e até negócios à mistura... isto foi um longo caminho e sinceramente nada fácil.... não gostar de mim ao ponto de achar que só em certas condições seria amada, ter tantas dúvidas do meu valor pessoal que a minha auto-estima estava condicionada ao reconhecimento dos outros... só deu lugar a vários desastres em termos amorosos... desastres saborosos está claro!!! Nem tudo é negro!!!


E reconheço isso na maioria das pessoas que falam comigo... SIM, você também está incluído! A qualidade do amor das suas relações tem a ver com a qualidade do seu amor próprio! Esta já ninguém me tira... e não me conseguem vender outra coisa...


Se está numa relação tumultuosa, dramática, cheia de problemas, que lhe traz mais sofrimento que paz, que lhe traz angústia e dúvidas constantes, que não lhe acende o coração, nem lhe traz um sentimento de chegar a casa... esqueça imediatamente de culpar e apontar o dedo ao outro, e saia também imediatamente do papel do salvador que vai ajudar o outro ou da vítima incapaz de ter uma ação ou decisão digna e com respeito por si mesmo!


A maioria de nós vive amores, seja lá com quem for, de uma qualidade muito pobre... e isso está diretamente ligado ao seu amor próprio e ao que decide aceitar como aceitável.


Um amor que não aguenta um diálogo sincero, ao ponto de se conversar abertamente sobre o seu possível fim ou fins ao longo de um relação que perdura no tempo, sobre o que nos incomoda e ouvir o que incomoda o outro, um amor que não tem espaço para seres autênticos no seu potencial total em evolução, um amor que não consegue pôr em cima da mesa o que se está a passar, um amor que não olha olhos nos olhos e deixa o seu coração falar... não é amor... é algo diferente...





Amor... é um espaço que vai além da paixão, amor é um querer bem desinteressado, é querer viver de um espaço verdadeiro onde 1, 2 ou mais pessoas se encontram e podem ser quem são... sabendo que quando não estão de acordo, sabendo que sendo diferentes, sabendo que mesmo que o amor amante termine e não dê para continuar, que mesmo que as opiniões sejam diferentes e vos levem por caminhos completamente desconhecidos... há um querer bem a essa pessoa ou pessoas... há um amor que perdura... há um pulsar da vida que existe, há desejo profundo que aquela pessoa vá bem...


E isto é possível na vida prática deste mundo? Pergunta-se muitos, perguntava-me eu há uns tempos...


Muitos de nós sabem que há um amor, um tipo de amor...está lá dentro, está no imaginário, está na alma e no coração... muitos de nós sabemos... mas depois no trato da vida real vemo-nos a fazer coisas incríveis que contradizem tudo o que sentimos no nosso mais profundo alento...


E.... isto.....


Porque ainda estamos a viver desse espaço inconsciente cheio de dúvidas, cheio de medos, de crenças que nos foram impostas, de verdades absolutas... mas na verdade... não somos nós próprios...


E se ainda está a ler e pensa que sabe quem é... pare ....e olhe bem fundo... porque se soubesse quem é, o seu pensamento neste momento era um respirar profundo e saber que o mergulho de uma vida é eterno e há tanto por descobrir...

Pare de se contar essa mentira... e corra atrás de si mesmo... se um dia quer usufruir do amor...



É de extrema importância o seu caminho interno, dar-se tempo para se conhecer, para se encontrar no seu mais desconhecido, para se curar, para se expandir, para se saborear, para se divertir, para se responsabilizar e deixar de projetar...


Quando nos começamos a descobrir, a amar passo a passo cada quarto escondido da nossa alma, a dar atenção a cada escuridão do nosso ser... a deixar cada brilho verdadeiro ter espaço sem um falsa humildade, mas sim com dignidade de quem está vivo em si... uma confiança em nós próprios começa a crescer... confiança de quem se ama... e que pode confiar no respeito que se tem. Dar-se ao respeito começa em si, por aquilo que conquista interiormente, um vício visto e sanado, um medo sentido e ultrapassado, um pedido de desculpas necessariamente correto, uma festa saboreada verdadeiramente, um momento a dois totalmente presente onde se perde a cabeça para dar lugar ao que se mistura... momentos na sua própria companhia... a compaixão e a capacidade de nos perdoar e rir de nós próprios...



Quando nos começamos a amar, a respeitar-nos e responsabilizarmos pela qualidade do que pensamos, do que sentimos, do que comemos, do nosso dia a dia, da nossa comunicação... permitimos ao outro que faça o mesmo... e não vendemos a nossa alma por menos... há uma qualidade que vem de dentro... e muito naturalmente se reconhece no que está fora... ou no que não está.


Assim, quando começa e continua cada vez mais próximo de si mesmo, quando o seu amor próprio está cada vez mais presente, aqueles jogos da personalidade que tanto jogava, aquelas mentiras que se contava deixam de fazer sentido e passa a viver de um espaço bem mais real, bem mais autêntico... e já não consegue fechar os olhos da consciente mais... o único caminho é continuar a abrir...


Começa a conquistar um espaço interno de profunda autenticidade consigo mesmo e com os outros, a realidade começa a ser bem mais simples... e começa-lhe a sair pela boca palavras sinceras sem necessidade de magoar, de criticar ou de espantar o outro... não é que não sinta emoções, sente... e sente ainda mais... pois ao ser autêntico não nega nenhuma parte de si, não se engana, pelo contrário, permite-se viver o que está lá, como uma flauta soprada pela vida... e passa a existir uma aceitação profunda pelo que é, pela verdade daquele momento, a sua verdade, a do outro e aquela que é co-criada em conjunto.



Se já tem consciência de si mesmo e tem a felicidade de ter um companheiro, amigos, familiares ou alguém no seu trabalho que também já é consciente, os momentos mais difíceis, aqueles em que abordamos o que realmente se passa dentro de nós, onde nos expomos verdadeiramente... não afasta o outro... pelo contrário, aproxima-nos intensa e profundamente... mesmo que esses momentos provoquem dor, se a vossa genuinidade, respeito e amor estiverem presentes, mesmo que isso acarrete uma separação ou distância inevitável, vai com certeza aumentar a verdadeira união que é o TAL AMOR que abarca todos os outros tipos de amor com profundo respeito e genuína vontade que o outro vá bem.



A viagem de descoberta do seu amor próprio é sem dúvida a base para se abrir ao TAL AMOR, então, porque não o fazer? Talvez descubra novas formas de amar que nunca pensou ou sentiu, ou que punha para debaixo do tapete por as criticar e tanto as desejar no fundo, talvez se deixe explorar caminhos que esperavam por si há muito.

Acho que estamos numa era intensa de possibilidades... a era onde a terceira guerra mundial pode explodir... como a era em que a consciência começa a brotar na maioria de nós... e passamos a co-criar uma vida onde todos são mesmo TODOS e não apenas uma minoria monopolizadora.


Ora veja o que fazemos com o nosso planeta, a fonte da nossa vida... como podemos nós inconsciente e estupidamente secá-lo? Não se engane... atenção que o planeta vai sobreviver sem nós! Não é sobre o planeta... é sobre a nossa sobrevivência, a humana e os animais que levamos connosco... porque a água vai secar, as plantas murchar, o fogo crepitar e o gelo cortar... sempre... e se o humano acabar... o resto vai sempre continuar.



Isto é o grau do nosso amor próprio enquanto humanidade, ser humano... a relação mais íntima e secular está vandalizada, como será possível amar?

Amar-se, encontrar-se, voltar a sentir, conhecer-se, perdoar-se, responsabilizar-se e fazer o que tem a fazer é único caminho para viver esse AMOR.

Sim, é possível... O amor é real... para quem o decide recordar



PARA OS MAIS RACIONAIS E TAMBÉM PARA OS MAIS EMOCIONAIS:



Quer saber como se conhecer?


  • Comece a investir no seu observador interno, a que eu chamo de consciência. Pratique a observação do que se está a passar consigo ao nível da sua experiência interna: como me sinto agora? Esta emoção será uma reação ao passado através deste momento, como por exemplo esta pessoa faz-me lembrar alguém? O que estou a pensar? Porquê? (as vezes a pergunta traz respostas profundas que levam algum tempo a vir ao consciente).


  • Observe o seu diálogo interno: é negativo e destrutivo? É megalómano? É tímido? É crítico e castrador? É ilusoriamente positivo sem ter noção da realidade?


  • Porque terá o seu diálogo interno essa qualidade? De onde vem?



  • Pergunte-se qual a qualidade da sua comunicação? Acusatória, não lhe sai nada? Consegue expressar o que realmente sente ou pensa? Aprenda a comunicar enunciando primeiro os factos e depois a expor como se sente, sem atacar o outro, por exemplo: “nesta situação eu senti-me abandonado, não respeitado, não visto...” Quando ataca o outro, por exemplo: “tu não me respeitaste, abandonaste-me...” fecha de imediato a possibilidade de diálogo.



  • Comece a meditar, nem que seja 2 minutos todos os dias, foque-se na sua respiração e quando se apanhar entretido nos seus pensamentos e emoções deixe-os ir e volte à respiração. Esta prática vai ajudá-lo a desenvolver a capacidade de observar o que se passa a nível mental e emocional sem se identificar com isso. A sua capacidade de decisão, de escolha vai ser cada vez mais clara.



  • Olhe para a sua infância e veja como ela ainda atua na sua vida atual e que formas ganha nas suas relações? Se não conseguir fazê-lo por si, peça ajuda a um profissional.



  • Pergunte-se: qual é a qualidade das suas relações? E porque se relaciona com as pessoas na sua vida? Qual o seu interesse ou porque se sente drenada para certo tipo de relações.


  • Pergunte-se qual o estado da sua saúde física, emocional e mental... e para os mais expansivos também a qualidade da sua vida espiritual.



  • Pense e escreva como seriam no ideal as suas relações saudáveis? E pode pensar em termos amorosos, em termos amizade, familiares e profissionais. Como se comunicariam, como se relacionariam, como se tratavam... dessa forma pode começar a adotar ações nessa direção.



  • Pense verdadeiramente quais são os seus limites em qualquer relação. E decida começar a implementá-los... claro que quem já o conhece pode achar estranho a sua mudança... pode sempre explicar: “a partir de agora gostaria que tivesse em conta... gostaria que não me voltasses a falar assim...” expresse o que é importante para si, só assim os outros conseguem ajustar-se a si e corresponder ou até contrapor.



  • Quando puder faça um retiro que o ajude durante uns dias a focar-se em si e ter um espaço profissional para mergulhar com segurança no seu interior, de forma a sua capacidade de trabalhar-se a si mesmo ser mais profunda. Escolha bem com quem trabalha e peça referências... este tipo de trabalho é delicado e é preciso ter qualidade.


Há muito mais, mas se começar por aqui já é muito bom!


Satya

A voar para Viena

18.02.109





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