SOBRE ABUSO NA INFÂNCIA



SOBRE ABUSO NA INFÂNCIA

Quando uma criança é abusada, seja sexualmente, seja emocionalmente, seja fisicamente por maus tratos ou negligencia, seja por humilhação, o que acontece é que fica gravado no seu sistema, emocional, sistema mental, sistema neurológico e físico aquele acontecimento.

Um abuso é algo sentido pela criança como sendo um trauma, um choque que vai condicionar o seu crescimento, a sua maneira de sentir, a sua maneira de percecionar o seu meio ambiente, as suas relações e a maneira como se sente vista ou não vista.

A partir do momento do abuso haverá sempre uma distorção da realidade, pois a partir desse momento aquela situação será uma lente influenciadora para o resto da vida.

Influência não significa apenas medo, solidão, insegurança, significa também se tornar abusador, significa também ser corajoso, significa estar preparado para a guerra....até pode significar um profundo e complexo conjunto disto tudo....na verdade....significa uma nova vida interna condicionada por esse acontecimento que não nos permite estar em contacto com a nossa verdadeira essência e afastando-nos cada vez mais de quem somos verdadeiramente......o que nos leva a uma vida com a sensação que algo falta constantemente.

UMA HISTÓRIA DE UM CLIENTE QUE ILUSTRA A DIMENSÃO DO ABUSO - Gratidão por usar esta história.

“Lembro-me perfeitamente quando assisti a uma discussão bem feia entre a minha mãe e o meu padrasto. Uma discussão onde a agressividade era forte e colocava em causa a integridade física da minha mãe. Mais uma vez, já tinham sido tantas.

Tinha onze anos… e no meio de tal caos, guerra, agarrei numa faca do pão e coloquei ao pé do pescoço do meu padrasto e disse-lhe: “para ou eu corto-te.” Ele sentiu verdadeiramente a minha intenção, que era real e, como foi apanhado totalmente desprevenido em anos de tanta violência recuou e parou também em choque. O silêncio chegou inundando todos com a perplexidade de 2 adultos perante a força de uma criança… perante a força física e a força de presença deste ser de 11 anos que chamava a atenção a 2 pessoas que se deveriam comportar de forma madura.

Depois de breves intensos momentos de silencio onde se escutava o subtil movimento dos olhos e se sentia o calor da respiração cortada pelo gelo da violência... chamei a minha mãe e disse: “vamos mãe...”. Ela levantou-se... do chão onde tinha caído por ter sido projetada no ar contra a janela da cozinha...

Aos 11 anos, depois de anos de abuso sexual em muitas das noites da minha vida, aprendi que abuso não tinha a ver com idade, mas com a incapacidade de nos defender, seja por não ter força física ou confiança em nós próprios... Na verdade, não conseguimos defender-nos porque achamos ou que merecemos tal mau trato ou porque desejamos tanto a outra pessoa que suportamos tal abuso.

Saímos da nossa própria casa, onde este homem era um convidado. Ele ficou na nossa casa, e nós em pijama viemos para o carro... a minha estava sentada ao volante em estado de choque... silencio mais uma vez... mas, este silencio agora era arrebatado por milhões de pensamentos da minha mãe... a sua cabeça não parava..., roía a unhas com o olhar perdido, até me parecia melhor alguém gritar do que aquilo........ao fim de um tempo disse-lhe:” mãe, vamos... vamos embora...” e nada, um silêncio gritante...

Passado 2 horas de tortura, por ver a minha mãe em estado catatónico e confuso... oiço: “filha, vamos...” pensei que finalmente alguma coragem e orgulho tinham brotado… mas, fiquei espantada quando me apercebi que o que ela queria dizer era, vamos voltar para casa, para o homem que nos mata quase todos os dias!!!!!!!

Não queria acreditar como isto era possível....queria gritar-lhe, queria bater-lhe, queria acorda-la......mas nada iria resultar.....já a tinha visto milhares de vezes a ter este comportamento... e eu já tinha aprendido a estar calada e a suportar um grau de abuso que me fazia evadir deste corpo e desta vida para um plano onde podiam usar o meu corpo, mas não conseguiam aceder ao meu espirito....aprendi cedo, que podem magoar o meu corpo e posso não ter opção, mas o meu espirito é sempre livre e o caminho da sua liberdade é a capacidade da imaginação e da profunda fé e sabedoria de navegar noutras dimensões.

Saí do carro e seguia a minha mãe... eu entrava ainda num silencio mais profundo, entrei em casa e fechei-me pela primeira vez às chaves no quarto... a partir desse dia aprendi a fechar o quarto às chaves todas as noites... o que me salvou verdadeiramente o meu corpo.

Ficou memorizado de tal forma este movimento da minha mãe, voltar para o agressor mais uma vez, que dou por mim na minha vida adulta a ser drenada para pessoas e situações de alto risco, de alto abuso e ficar... é como se houvesse um impulso inconsciente que me toma totalmente, que vive nas células e nos seus átomos que conhecem perfeitamente esse caminho, fico cega e acredito que é o caminho.....vi-me a ficar em relacionamentos altamente abusivos, e quanto maior o abuso, mais a vontade de ficar e ter esperança que algo mudasse.

É impressionante que, mesmo com anos de terapia em cima e trabalho de desenvolvimento pessoal e consciência, mesmo já estando muito mais consciente e não permitir a maioria desses abusos, as relações mais difíceis, as relações onde alguém me trata de forma desonrosa, com falta de respeito, seja por mal dizer, seja por negligencia, seja por medo, dúvida, critica ou julgamento... sou drenada para pessoa e tentar solucionar algo que não é possível, no fundo procuro solucionar o meu passado, a minha criança que queria ser bem tratada, reconhecida, amada pelas pessoas que supostamente deveriam ser os seus máximos cuidadores e que não foram....pelo contrário.....foi abusada.....ainda procura nessas pessoas todo esse amor....que na verdade não o tem para dar......essas pessoas precisam de ser confrontadas para se poderem tratar.”

Se você foi vitima de abuso tem de se ir tratar, pois quase de certeza está a repetir na sua vida, ou de forma grosseira ou subtil esse abuso ou a permitir de forma grosseira ou subtil esse abuso.

Isso não é estar em si, isso não é estar vivo, isso é um lupe constante que lhe drena a sua vida, isso é um lupe que o vai matando dia a pós dia... e acaba por se sentir cada vez mais impotente, cada vez mais solitário, mais frio e neutro.

É possível uma pessoa que sofreu de abuso trabalhar-se e conquistar mais qualidade de vida, é possível... MUITOS ESCOLHEM FAZÊ-LO!

Não se contente com vidas medíocres… se este texto mexeu no seu coração ou alma, seja porque afloraram sentimentos, talvez tenha sofrido de abuso.

Você não é só a sua historia pessoal, você é um vasto universo complexo, que nem a sua mente pode aceder, nem a ciência, nem a filosofia podem explicar, a fé pode simplesmente ajudar a manter a chama da vida acesa para que possa continuar.

Você pode trabalhar a sua história pessoal de forma a que se torne produto de crescimento e a tocar verdadeiramente em quem é, pode transformar as suas emoções, pode trabalhá-las, pode até mudar o seu corpo, curar doenças físicas e psicológicas, pode mudar a maneira de pensar olhar a vida... com a ajuda de alguém... mas sempre com a sua força de vontade. Tenha coragem, peça ajuda, tenha coragem e enfrente a sua história e o que isso tem provocado na sua existência e vida e, permita que esse trabalho seja uma porta para a consciência, para uma vida mais plena. Você não foi responsável pelo abuso que sofreu, mas é responsável por lidar com isso e como isso corta e recorta a sua vida.

Está num momento da humanidade que tem a liberdade de poder procurar ajuda sem ser catalogado de maluco, como há coisa de 20/10 anos atras. Antes, procurar este tipo de ajuda era visto com preconceito... sabe, todos temos problemas… a maior parte de nós vem de gerações de pais e avós que foram altamente reprimidos pela própria família ou pelo governo e religião... é da sua inteira responsabilidade tratar-se para não perpetuar padrões de inconsciência nos que mais ama ou com quem trabalha diariamente... e, especialmente por si mesmo!

Pedir ajuda, não significa que esteja contra os seus pais, ou pessoas que o abusaram, até pode ser que compreenda, que já os tenha perdoado, ou então ainda tenha de fazer um longo processo de conseguir defender-se, colocar limites e começar a sentir que é merecedor de amor e respeito. Quando pede ajuda, o que está a fazer é ser responsável por si mesmo e pela sua vida. Não tem nada a ver com o outro ou contra o outro... O que esta a fazer é dar atenção a si próprio para poder seguir com a sua vida de forma mais amorosa, mais plena, mais confiante, mais compassivo e consciente.

Em todos os sectores, em todas as famílias, profissões – incluindo a da justiça e direito, países, religiões, seitas, cultos ou comunidades espirituais... ainda existem estes padrões de abuso consciente ou inconsciente… se procurar ajuda para si, está a contribuir para um mundo melhor... primeiro o seu, o seu mundo interno, depois o mundo do seu núcleo familiar, de amizades e trabalho... e isso pode fazer a diferença.

Você merece ser amado e ser respeitado! Tem de o começar a fazer primeiro consigo mesmo!

ESTE ARTIGO NÃO TEM CARACTER FORMATIVO, TEM CARACATER DE TOCAR, INSPIRAR ALMAS, PESSOAS, CORAÇÕES, PORQUE A VERDADEIRA REVOLUÇÃO É INTERNA!

Satya Rita Rocha

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