PT - A DOR DA SEPARAÇÃO - A Separação das águas


É triste para uns, é um alívio para outros, é uma morte para muitos, é uma bênção para mais uns quantos, é um desespero muitas vezes, é uma série de anos de resistência, é o produto de uma vida, é inesperado, tudo isto para outros tantos... a questão do divórcio é que é um momento intenso na vida de quem o passa.



Podemos ter vários cenários que nos levam ao divórcio seja ele num casamento de papel registado, seja ele numa relação longa ou curta... se preferirem podemos chamá-lo de SEPARAÇÂO, se não quiserem que a parte legal esteja em causa.


“Divórcio vem do latim divortium, "separação", derivada de divertere, "tomar caminhos opostos, afastar-se". Além de ser usado para designar o rompimento do casamento civil, o vocábulo aparece na interessante expressão divortium aquarum, "separação das águas": a linha a partir da qual as águas correntes tomam direções opostas: conceito adotado para determinar fronteiras geográficas em regiões onde não há outros pontos de referência.


Este foi um dos critérios sugeridos à Argentina e ao Chile para fixar suas fronteiras nos Andes: uma linha virtual baseada no ponto em que se dividem os rios que desaguam no Atlântico e os que desaguam no Pacífico.” Segundo https://www.dicionarioetimologico.com.br/divorcio/

O divórcio é uma palavra que foi assimilada e legalizada pela lei em 1910 em Portugal, ao necessitar de uma figura jurídica para regular estes momentos do foro emocional que têm consequências ao nível do mais quotidiano e mundano da vida.




Os tais cenários podem ser estes e mais alguns infinitos, aqueles que correspondem aos contornos internos de cada um:


-união sem amor

-desgaste da relação

-falta de comunicação

-traição

-incompatibilidade emocional

-diferenças de pensamento

-sexualidade distorcida, pobre, nula, ou excessiva

-solidão

-doença

-morte

-falta de intimidade

-vícios

-problemas familiares

-falta de compreensão

-egoísmo

-falta de paciência

-incapacidade de se ser autêntico

-incapacidade de expressar as suas necessidades

-incapacidade de ver o outro

-falta de confiança

-perda de um filho

-morte de alguém não ultrapassada

-apesar do amor, querer mais do que apenas um parceiro

....





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As razões são inúmeras.


Cada vez que entro numa consulta e o tema da separação e divórcio se apresenta, sinto a presença de uma instituição bem antiga, tão antiga como a própria existência que deu origem à dualidade, que deu origem ao noite e ao dia, que deu origem ao homem e mulher, à diferença de culturas e fronteiras que nos separam e marcam essa linha divisória de culturas, que deu origem à saída da criança do útero materno, que deu origem à vida e à morte, que nos faz sentir a morte no inconsciente, no consciente e até no físico para muitos... uma saudade, um medo, um alívio, um descansar, um respirar profundamente perante o inevitável...



Posso dizer que grande parte dos meus clientes entram pela porta da consulta maioritariamente através das relações, normalmente é a porta de entrada para um profundo e incrível percurso de auto consciência e descoberta...seja do passado, seja do presente, seja do que já conhecia mas que fica mais reconhecido, seja de algo totalmente novo sobre si mesmo...



Esta instituição, a SEPARAÇÃO OU DIVÓRCIO, é forte, pesada e tem bastantes expressões nas pessoas que a vivem, desde um silêncio aterrorizador, uma dor no peito, uma depressão pesada, sonhos destruídos, noites em claro, lágrimas que secaram a fonte, berros de desespero, risos e lamentos, gargalhadas de alívio e perplexidade, anos de desistência da vida, dias e dias que parecem nunca mais passar, a cor cinzenta, novas portas a abrir, corridas para aproveitar os anos perdidos, um simples e bonito aceitar do fim de algo, aprendizagens, muitas aprendizagens...



Se pararmos e contemplarmos a antiga figura que existe desde que temos consciência de nós próprios, a separação é inevitável, mesmo para casais que fiquem juntos uma vida inteira, na hora da morte, mesmo para estes há uma separação, nem que seja física.


A separação é uma antevisão, um exercício real para o derradeiro momento que será a morte, a separação de tudo o que conhecemos, de tudo o que nos apegámos, da nossa própria história e dos nossos queridos.


A separação é uma morte, uma morte para sempre em alguns, uma morte do que havia enquanto sistema daquela relação, é sem dúvida um salto mais uma vez para o desconhecido, pois partimos para a vida de uma nova forma sem saber o que essa forma terá como consequência.




Como lidar com uma separação, como sobreviver a um divórcio?


Atenção que separação e divórcio pode acontecer entre amigos muito íntimos, onde a conversa diária, a partilha profunda é muitas vezes mais real do que numa relação em que há sexo. Quantas sessões o tema da separação veio pela perda, chegada ao fim ou renegociação de amizades? Muitas! Tantas quase as de relações amorosas ou sexuais. Às vezes perder o “grande amigo” é mais penoso do que perder o parceiro.


Se conseguirmos olhar para uma separação ou divórcio como uma oportunidade de crescimento, de pesquisa, de aprendizagem sobre o nosso ser interno, sobre a maneira como vivemos, como nos relacionamos, como nos expressamos, como nos damos, como partilhamos e contribuímos... a dor não passa, mas o sofrimento diminui, pois conseguimos atribuir um sentido a um momento de grande dor e ao dar-lhe sentido a dor passa a ser nossa aliada. Aliada do nosso crescimento, do nosso encontro connosco mesmo.





A dor será sentida até purgarmos emocionalmente, mentalmente e fisicamente um estado que não queremos largar, um estado que não sabemos largar, um arrependimento ou vício, uma saudade imensa... A purga de uma separação leva tempo, diferente para cada um, mas por aquilo que vou vendo e vivendo é a existência de uma média de 2 anos. Não há regras, felizmente, mas há médias, mas que também só servem de pilares de regulação.


É um período onde somos levados a carpir, onde somos obrigados a sentir, onde somos obrigados a refletir até perdoar, largar, passar, agradecer, aprender. Esse período pode ser de extrema importância se lhe der oportunidade, pois com um trabalho de consciência pode conhecer os meandros do seu ser e com isso reformular-se, renegociar-se, expandir-se, curar-se profundamente e até fazer as pazes consigo.





Aproveite esse momento como se não houvesse amanhã, pois é um momento incrível de vulnerabilidade onde você se permite ser ajudado, pois quando sofremos, caímos de joelhos e aceitamos toda a ajuda, pois ela é bem-vinda. Mas então, convido-o a usar este tempo, momento, situação, experiência com toda a sua consciência e use-o a seu favor, para seu benefício.


Eu já passei por 2 divórcios e mais umas separações na minha juventude. Nenhuma delas foi fácil. A primeira de todas, aos 16 anos, com o meu primeiro amor, foi o desgosto da paixão, foi o iniciar-me na aventura do que era ser completamente avassalada por um sentimento que nunca tinha tido por um outro ser humano, entregar-me inocentemente e um dia isso acabar. Doía-me o corpo, doía-me a alma, o coração estava de luto.

Eu fiquei sozinha, jantava às vezes com outros rapazes mas nada me saia apesar do esforço e boa vontade deles, seguia para casa sozinha e durou tempo, até que um dia um último choro saltou-me dos olhos à secretária onde estudava filosofia. Chorei mais de 3 horas de seguida e quando terminou sentia na totalidade do meu ser como a última gota daquele amor.


Ajudaram as amigas, ajudaram as reflexões e aprendi que apesar de tudo vale apena amar e que não ia ter medo de amar, queria amar. Mas ainda estava longe do significado que o amor tem hoje para mim. Ainda vinha de uma parte tão inconsciente, até doente, mas foi assim para mim e guardo com tanto carinho esse amor, a primeira paixão que me avassalou e também me tornou quem sou.

A segunda separação foi do pai dos meus filhos, aquele amor que pensei que fosse para sempre, um amor verdadeiro, incondicional, muito feliz, cheio de graça e intimidade, cheio de alegria e total entrega, deu fruto ao Manel & Martim, o mais profundo amor que posso ter por um ser humano. Aqui foi-me dada a possibilidade de conhecer um amor no seu estado mais puro, o amor de mãe.


Não foi fácil ser mãe e há momentos de cansaço extremo que me levam a contactar com demónios antigos, inseguranças de vida, de questões existenciais. Aqui fui transportada à viagem mais profunda e real, sem que tenha pedido para que isso me acontecesse. Todas as terapias, retiros, sessões e livros espirituais caiam por terra, pois aqui era a vida prática e aqui não tinha fuga, tinha que lidar com tudo isso e colocar-me ao serviço de outro ser humano, o amor ou era verdadeiro ou então todos esses buracos do meu ser revelavam-se.



Agradeço cada revelação e oportunidade, pois devolveram-me quem eu som, curaram-me dores minhas e da minha família... atenção que isto não são palavras ocas, são momentos obscuros que me levaram a sentir novamente o medo de ser rejeitada, o medo que os meus filhos pudessem passar por abuso como eu passei, medo de não ser suficiente, de não ser boa mãe, de me ver sem paciência e como isso se revelava em berros ou apatia – isso e muito mais fez-me crescer, querer melhorar e ser livre de tanta escuridão, transformar tanta dor e sofrimento em amor, em criatividade, em vida!


Essa separação trouxe-me o medo de não ser capaz de educar sozinha, ficaria sozinha? Como partilhar filhos? Como confiar novamente? Será que algum homem ia querer uma mulher com filhos? Será que ia conseguir voltar a amar? Será que alguém me ia amar...?

E um longo processo para me encontrar, agora com bem mais consciência e com a experiência da vida, com o peso da realidade, foi percorrido. Lágrimas, sensação de liberdade, medos e oportunidades... agradeço cada dia com a pena de um sonho terminado mas com a alegria de uma mulher que se resolvia.



A terceira separação, aquela a que chamo a Purga, de tantos padrões doentios escondidos, de tanta cura necessária para partes da minha alma que carregava tanta dor, a que muitas vezes chamei amor. Não sabia, mas vinha aí um caminho nunca antes percorrido, voltei profundamente ao abuso, à co-dependência de relações tóxicas, à necessidade de trabalhar em excesso para acompanhar a vida que não era minha, ao vício de permitir a manipulação e pensar que eu poderia salvar alguém! SALVAR, na verdade a minha criança interior que não tinha sido salva no momento certo, atuava em mim querendo salvar os outros como forma de se salvar a si, até esta profissão que tenho, foi também produto dessa criança que precisava desesperadamente de espaço para o sentimento de que é possível curar, sair da dor e voltar a amar e ver a vida como uma eterna flor que desabrochar com o seu doce odor.


Assim, ao separar-me de anos de dor, entreguei-me ao amor, mas ao meu amor! E estive sozinha, sozinha, sozinha... sem um outro amor que não fosse o meu... e esse percurso devolveu-me o meu ser, a minha mulher, a minha companhia, a minha cura – que será eterna, pois já não tenho ilusões de um fim rápido, mas não a vejo como algo inacessível, ao contrário, em cada passo vejo uma iluminação, uma doce luz da consciência que desabrocha eternamente – devolveu-me mais confiança, mais alegria, mais capacidade de me sentir, da minha verdade, do que realmente importa e como me apanhar na curva quando esses padrões querem ainda atuar, como aceitá-los e dar-lhes a atenção devida para que possam ser atendidos e derretidos deixando-me simplesmente ser. Esta foi sem dúvida uma profunda revolução no meu ser e também uma grande libertação. Lembro-me daquele cliché: a dor como teu mestre. E foi! Assim continuei o caminho de volta à minha alma, mas agora com mais força, a força do sofrimento que me levava a ver o quanto tinha de aprender a amar-me verdadeiramente.



E sim, lembro-me dos momentos bons e mágicos de todos estes amores que afluíram num fim, esse grande rio que me leva onde tenho de ir.

E quando a purga começava a chegar ao fim, quando a cura me preenchia já de entendimento, aceitação, perdão, alegria e amor empurrando-me novamente para o processo de abertura para a vida, para o movimento de expansão... o amor tinha uma nova oportunidade. E agora com muito mais consciência de quem sou.

Se conseguir olhar para si num desses momentos, vai permitir ver-se verdadeiramente e tem oportunidade de crescer e de se aproximar cada vez mais de si próprio e ser livre para realmente viver o amor, o amor de elação, o amor de filhos, o amor a si próprio, o amor à vida, o amor de criar a sua vida.




Algumas dicas para lidar com esse momento:



  • Aceite a dor e o sofrimento dessa situação.

  • Seja 100% honesto consigo próprio, só assim pode existir transformação

  • Não fuja dele, não se minta e não tente diminuir a dor com outras relações, com álcool ou droga ou até mesmo antidepressivos para deixar de sentir a dor. Apenas vai adormece-la e um dia vai voltar! É inevitável!

  • Peça ajuda a um profissional de qualidade e parta na maior descoberta que pode ter, a sua.

  • Partilhe com amigos íntimos que lhe podem dar feedback real quanto à sua situação

  • Deixe de culpar o outro e concentre-se no seu processo de cura

  • Foca-se totalmente em si




  • Permita-se confrontar com as suas culpas, com as suas faltas, com os seus sentimentos mais difíceis, eles são a porta para se compreender

  • Permita-se conhecer para quando padrões destrutivos que se repetem ao longo da vida aparecerem estar preparado para reconhece-los e decidir como quer viver a vida, e não ser escravo desses sentimentos ou modos de pensar que o levam a repetir as mesmas situações e atrair o mesmo tipo de pessoas.

  • Lembre-se que tem nas suas mãos a possibilidade de crescer e de ser livre.

  • Ao mesmo tempo invista em atividades saudáveis e que lhe tragam prazer.

  • Invista no seu ser

  • Não se isole

  • E tenha a capacidade de ter paciência consigo mesmo

  • Ao entregar-se a este processo profundo de consciência vai dar sentido a este momento e vai sentir que avança em direção a si mesmo, e não apenas que se deita com a dor intensa da separação.

Satya

14.11.2018

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