A história de uma alma velha, a alma da mulher, a alma da humanidade, a alma do homem...a nossa alma


Há muitos, muitos, séculos que não me lembrava de poder ser tão livre.


Há muitos, muitos, séculos que não me lembrava de não sentir medo.


Medo de andar na rua, medo de não ser casada, medo de não poder falar, de sentir e até de pensar.


O medo que me pudessem escutar o pensamento, fazia-me encolher até dos próprios homens que me pudessem amar ou das mulheres que me pudessem julgar.

Medo de ser velha de mais, medo de não ter marido, medo que o marido morresse e não tivesse quem me protegesse, medo que me levassem os filhos...

Medo de ser nova e bela, medo que me violentassem o corpo, medo de existir enquanto mulher, pois significava apenas propriedade, medo do medo.

Medo de ser sábia, medo de saber e ser queimada viva por ajudar, medo de falar e que me roubassem a dignidade, medo da humilhação constante e do paternalismo no melhor dos casos.

Medo de ter que me tornar naquela manipuladora de tudo e todos para sobreviver a tanta miséria, medo do sexo sem prazer só para engolir mais uns quantos poder.


Medo de ter que me tornar naquela manipuladora de tudo e todos para sobreviver a tanta miséria, medo do sexo sem prazer só para engolir mais uns quantos poder.

Até que o medo deixou de ser medo, pois já tinha sido morta tantas vezes, já tinha sido violada até o corpo já não doer, já me tinha calado e consentido, já me tinha vendido, já me tinha eu própria dado a morte para acabar com o sofrimento, já tinha visto amantes e pais morrer na minha defesa, tinha sido educada, tida sido submissa, tinha sido mutilada sem que um som saísse do meu peito... mas nada, nada alterava...


A alma esperava que alguém viesse em minha defesa... mas nada, nada alterava... só via medo, só via sujidade, só via deturpação da vida... até que um dia só me restou a luta daquela que se levantou... que se levantou contra tudo e todos, tudo e todas que não me vissem, que não me ouvissem, que não me libertassem, que não me respeitassem... e todo o medo deixou a minha alma e no seu lugar nasceu a fonte da dignidade, a fonte da humanidade... eu já a carregava no ventre há muitos séculos... mas agora eu passava a carregá-la na alma.



A alma levantou-se e falou... não contra os homens, não contra as mulheres... mas só a favor de mim, a favor de nós, a favor de todos os filhos e filhas que não têm de ver as suas mães morrer ou sofrer, que não tem de temer a própria vida.


A alma levantou-se e falou a favor da humanidade, onde homem e mulher, de qualquer raça ou continente, onde qualquer classe social ou estatuto são abraçados só, porque nasceram assim livres, assim naturais...


A alma levantou-se e lutou, porque era a única forma de ser escutada, gritou para que outras e outros entendessem que também podiam gritar, que também se podiam liberar...

A alma levantou-se e dançou, despiu as roupas cinzentas, as roupas que servem só para agradar ou esconder e encontrou-se nua perante a verdade, somos filhas do mar, do céu, do divino, do amor, desta natureza e mistério...


Assim perdeu o medo de estar sozinha, perdeu o medo da sua sabedoria, perdeu o medo de sangrar, pois é fonte divina, perdeu o medo de se amar, perdeu o medo de se poder saborear, perdeu o medo de lutar, perdeu o medo de cantar.


A alma levantou-se e a sua garganta seca de tantos séculos de não poder cantar começou a jorrar... hoje canta poemas de esperança, de valores, de princípios e amores...

E canta por todos, por todas as que ainda que vivem nesse pesar, por todos que ainda não conseguiram acordar.


Hoje, há escolha... há escolha de ficar, há escolha de partir, há escolha de falar, há escolha de pensar e saborear... que esta vida seja aquela que vivo sem medo de andar, sem medo de falar, sem medo de sentir, sem medo que me arranquem a vida só porque nasci assim mulher para amar.


Hoje, ontem, há muitas vida que deixei de ter medo de morrer, pois tenho algo por que lutar... e não é por mim, é por nós... humanidade... quando uma alma se levanta... levanta os seus filhos, levanta os seus pais, levanta aqueles que lhe sorriem e aqueles que a dilaceram... porque quando uma alma se levanta... a humanidade canta.


Hoje é dia da humanidade, é dia do direito à vida, é dia de todos nós... é o nosso dia.


Satya



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